A questão racial nos EUA é, sem dúvida alguma, uma questão social. Embora alguns negros norte-americanos sejam bem sucedidos na indústria do cinema, nos esportes de alto rendimento e em alguns outros segmentos da economia dos EUA, milhões de afro-americanos pobres vivem basicamente de trabalho manual, seguro-desemprego, subemprego e pequenos crimes. O contingente de negros condenados à prisão naquele país é imenso.
As condenações impostas aos criminosos brancos geralmente são menos severas que aquelas impostas aos negros que cometem crimes semelhantes. Os casos de violência policial raramente acabam em punições quando o autor do crime é branco e a vítima é negra. Tudo isto gera uma permanente sensação de injustiça, que explode nas ruas quando ocorre algum incidente que serve de catalisador das frustrações sociais.
O “sonho americano” de um país sem classes e, principalmente, sem ciências sociais inspiradas no marxismo, resultou numa estrutura econômica e política que fica mais e mais parecida com a distopia “A máquina do tempo” concebida por H.G. Wells. Os policiais brancos, racistas, musculosos e violentos são a encarnação dos Morlocks, humanóides predadores de QI 50 que tratam os Eloi como gado. Os civis norte-americanos, negros e liberais brancos, empregados ou desempregados, são os Eloi em cujo lombo são despejadas as pancadas, as pauladas e os tiros de pistola e de fuzil dos Morlocks.
No topo da pirâmide norte-americana estão os ricos e super ricos que comandam as petrolíferas, montadoras de carros e de aviões, estaleiros, empresas .com, bancos, negócios, o comércio e, principalmente, o Estado. Eles são os duplos dos Über-Morlocks, humanóides superiores de elevado QI que controlam telepaticamente os Morlocks no filme “A máquina do tempo” (2002).
As semelhanças entre literatura e sociedade são grandes. As diferenças, contudo, são maiores. No livro de H.G. Wells e no filme homonimo citado, os Eloi são gentis, apáticos e não reagem de maneira violenta e organizada quando são caçados pelos Morlocks que desejam devorá-los. Os negros norte-americanos não são tão pacíficos e agem de maneira concertada. O comportamento das comunidades afro-americanas segue um padrão.
Cada vez que um policial branco norte-americano mata ou espanca um negro, com ou sem razão, as comunidades negras reagem de maneira organizada e quase sempre violenta. O resultado é a elevação das tensões raciais a níveis que raramente podem ser vistos em outros países com populações mistas.
O único lugar do mundo onde vemos um fenômeno parecido é no Oriente Médio. Há uma semelhança evidente entre os conflitos que estão ocorrendo em Baltimore neste momento e aqueles que marcaram a 2a. Intifada. Como os palestinos que sacudiram a tirania lhes imposta pelos violentos soldados de Israel, os negros norte-americanos usam pedras e paus contra os policiais que investem contra eles. Aumento da violência estatal, prisões em massa, soldados machucados e mortes são previsíveis e, provavelmente, até desejados pelos comandantes policiais e líderes comunitários. Se um policial morre, mais repressão. Se um manifestante negro sangra, mais protestos, carros incendiados e comércios saqueados.
As semelhanças estéticas e antropológicas entre a 2a. Intifada palestina e as manifestações em Baltimore são evidentes:
https://www.youtube.com/watch?v=vRm4Ucwfr9g
https://www.facebook.com/ABC15/videos/10152931960826359/?pnref=story
Uma guerra de atrito vai sendo travada nas ruas até que as lideranças (palestinas e israelenses, no caso do Oriente Médio; negras e estatais/policiais, no caso dos EUA) cheguem a um acordo que permita o apaziguamento temporário do conflito. Uma solução permanente parece estar fora de cogitação. Em Israel isto é impossível porque o “povo supostamente eleito” acredita que recebeu a “terra prometida” diretamente das mãos do Jeová e não quer compartilhar nada com os palestinos. Nos EUA porque as despesas militares inibem o aumento de despesas sociais com as comunidades negras. Parceiros militares inseparáveis, EUA e Israel parecem condenados a partilhar, por razões diferentes, problemas sociais (e raciais) semelhantes. Foi por isto que chamei os protestos em Baltimore de Intifada Negra.
No princípio do século XX um político brasileiro chamado Washington Luís (que foi governador de São Paulo e Presidente do Brasil) dizia que “a questão social é caso de polícia”. Ele foi deposto por Getúlio Vargas em 1930 e morreu no exílio. A política do Brasil evoluiu desde então, as ciências sociais também deram bons frutos no nosso país. Quando vejo o que ocorre nos EUA agora, quando fico sabendo da forma estúpida como a “questão social” é enquadrada pela imprensa dos EUA, quando eu leio o que os norte-americanos adeptos do americanismo ou do conformismo escrevem na internet, sempre lembro de Washingon Luís. Mesmo sendo um homem do século XIX início do século XX ele faria sucesso na direita norte-americana nos dias de hoje.
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