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Cidadania

A campanha da Igreja contra a fome no mundo

Sugerido por Cláudio José

Do Jornal do Brasil

 
Dom Orani João Tempesta*
 
Mais uma vez nossos olhos e ouvidos voltam-se e abrem-se para um novo apelo: combater a fome no mundo. Certa vez, Madre Tereza de Calcutá disse: “Meu Deus, como dói esta dor desconhecida...” referindo-se aos pobres, famintos e doentes moribundos nas sarjetas. Por isso, fiel ao meu ministério a Cristo e à Igreja uno-me ao Santo Padre, o Papa Francisco, que abriu a Campanha Mundial da Caritas Internacional contra a fome no mundo, lançada no Vaticano com a presença de mais de 30 mil fiéis na Praça de São Pedro, no último dia 10 de dezembro, aniversário da Declaração Mundial dos Direitos Humanos. Em unidade com toda a Igreja e aos milhões de irmãos que sofrem, também digo: “meu Deus, como dói esta dolorosa dor da fome”.
 
O Papa Francisco exorta os católicos, governantes e toda sociedade civil para um total engajamento, a fim de erradicar aquilo que ele chama de “escândalo da fome”. O Papa convida para que todos se juntem ao slogan da Campanha da Cáritas: “Uma só Família humana, alimento para todos”.
 
Os números não negam, nos surpreendem, apavoram e até enganam... Mas, por que enganam? Porque até o final da leitura deste artigo, que você levará em torno de dois minutos, estes números que aqui serão apresentados já não serão mais os mesmos... Milhares já terão morrido de fome enquanto você estiver lendo isto... Outros entrarão para o cinturão da miséria. Afinal, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), a cada minuto 12 crianças morrem de fome no mundo. Vejamos algumas estatísticas:
 
Segundo a última informação divulgada pela ONU (Organização das Nações Unidas), na terça-feira, dia 10 de dezembro p.p., uma em cada oito pessoas sofre de fome crônica no mundo. Seriam aproximadamente em torno de 842 milhões de pessoas subnutridas, ou seja, pessoas que não possuem alimentos necessários para uma vida saudável e ativa. Muitos esforços são empreendidos pelos Governos e muitas frentes não governamentais, mas o que se observou foi que desde 2010 até 2013 apenas 26 milhões de pessoas foram resgatadas dessa margem de pobreza e miséria. O Brasil, apesar de todos os esforços e sua riqueza produtiva de alimentos, tem 16 milhões de pessoas que estão em estado de fome crônica. Se for pensar em investimentos concretos, então pense que serão necessários no mínimo 30 bilhões de dólares por ano para erradicar a fome no mundo. Isso não chega aos 10% do que os EUA investem por ano em armamento (US$ 450 bilhões). Permitam-me reproduzir abaixo um gráfico apresentado pela FAO:
 
• 814,6 milhões de famintos nos países em desenvolvimento (como China, Bolívia, Angola...) • 28,3 milhões de famintos em países de transição (como Rússia, Croácia, Ucrânia...) • 53 milhões de famintos na América Latina • 9 milhões de famintos nos países industrializados (como Alemanha, Estados Unidos, Austrália) • 15,6 milhões de famintos no Brasil • 5 milhões de crianças morrem de FOME por ano: uma morte a cada 5 segundos • Com US$ 25 milhões por ano, seria possível reduzir drasticamente a desnutrição nos 15 mais famintos países da África e da América Latina e salvar da fome pelo menos 900 mil crianças até 2015.
 
A situação é dramática e desencontrada quando se quer mostrar algum gráfico brasileiro. Fontes do IBGE (34 milhões) e Fundação Getúlio Vargas (50 milhões) apontam divergências enormes de pessoas abaixo do nível de pobreza no Brasil. Já os índices oficiais apontam níveis mais esperançosos: apenas 24 milhões de brasileiros passam fome no Brasil, já que aqui se tem o programa “Fome Zero”.
 
Olho para o pronunciamento do Papa, como “A Carta que o Papa Francisco escreveu à humanidade”. Uma carta que leva o selo da solidariedade postada no correio da caridade fraterna e cristã para os destinatários de todos os credos, raças, línguas e nações. São palavras tão claras e profundas que reproduzem o evento do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, quando Jesus, diante daquela multidão faminta, delega seus discípulos à distribuição do pouco que possuíam: pães e peixes. A graça divina agiu naquele momento e todos ficaram saciados, as sobras foram recolhidas para novas necessidades e nada foi desperdiçado. “A parábola da multiplicação dos pães e dos peixes nos ensina justamente que se houver vontade, o que temos não vai acabar, ao contrário, vai sobrar, e não deve ser perdido. Por isso, queridos irmãos e queridas irmãs, convido-os a abrir um espaço em seus corações para esta urgência, respeitando o direito dado por Deus a todos de ter acesso a uma alimentação adequada.”
 
Chamo atenção para o substantivo urgência que o papa sublinha afinal, na rotina de uma pessoa nos alimentamos pelo menos três vezes ao dia enquanto estes aqui citados nas estatísticas da ONU o alimento é a preciosidade do “de vez em quando”. Outro elemento forte na carta do Papa é a expressão “se houver vontade”; ali o Papa Francisco está convocando em primeiro lugar os Governos e em seguida toda sociedade civil para uma verdadeira “vontade política” de abertura, conversão e distribuição dos alimentos. Em outro momento, inclusive no encontro com os estudantes universitários de Roma, o Papa pede para que não fiquemos olhando pela janela e sim para que lutemos a fim de vencer a batalha contra a fome. Ali está a batalha para de fato derrubar esta condicional “se houver”. Como o próprio Sumo Pontífice afirma: o “escândalo da fome não pode nos paralisar”.
 
O desperdício de alimentos que são jogados no lixo é um escândalo para a humanidade. Existem projetos para o aproveitamento e assim alimentar os necessitados do mundo, mas isso supõe, além das iniciativas de empresas e organizações, vontade política e leis condizentes. O Papa lembrou mais de uma vez: se a bolsa de valores cai um dígito é manchete mundial, se uma criança morre de fome em nosso planeta é apenas um número na estatística.
 
Mas a Palavra de Deus se torna sempre viva nos homens de fé e coragem que exortam a humanidade para olhar os nossos irmãos com os olhos da solidariedade e com a mesma sensibilidade com que Cristo olhava para os que mais sofriam.
 
Caríssimos, diante desta dolorosa dor da fome, abramos nossos corações e nossos armários para a verdadeira partilha e solidariedade. Em nossa Arquidiocese do Rio de Janeiro estamos trabalhando na execução do Ano da Caridade. Procure a sua Paróquia ou comunidade. Lá você encontrará todas as informações necessárias para saber como interagir neste apelo que o Santo Padre nos faz. O nosso Vicariato da Caridade Social, com as pastorais Sociais e entidades da Arquidiocese, como a Caritas Arquidiocesana e outros, irá articular o nosso trabalho deste ano que iniciaremos com a Trezena de São Sebastião, que tem como lema: "SÃO SEBASTIÃO, DISCÍPULO DO AMOR E DA CARIDADE" e o texto Bíblico referência é: "Se não tiver caridade, de nada adianta!" (1Cor 13,3).
 
Estejamos unidos e façamos a diferença neste ano. Tudo isso é consequência da nossa missão evangelizadora e o fato de encontrarmos Cristo na pessoa do irmão.
 
Dom Orani João Tempesta é Arcebispo do Rio de Janeiro. 
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Comentários

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Obelix

O tratado religioso sobre a fome.

Prezados Senhores, não leiam em minhas palavras qualquer sinal de preconceito ou intolerância contra a Igreja Católica, Apostólica e Romana.

É verdade que seu papel sempre foi contraditório.

Em algum tempo, muito remoto é verdade, a noção de estruturação de um sistema de valores humanitários (religiosos) deu algum sentido ou acelerou processos civilizatórios. é verdade que estes processos dividiram espaço com retrocessos, como torturas, perseguições e a Inquisição.

Porém, como dissemos, sendo uma esfera humana, a Igreja alimenta e cultiva seus antagonismos.

Por outro lado, assim que incorporou o estamento, e passou a ser fonte normativa de condutas e eixo de poder, a ICAR, como toda insituição sucumbiu aos paradoxos inerentes à sua temporalidade.

Se antes havia uma Igreja que poderia combater o poder, para se tornar o que é hoje, a Igreja se aliou e se tornou, ela mesma, um poder à parte e que sempre pairou sobre os demais.

Não devemos julgar insinceras as pretensões papais ou de seus discípulos, não é nada disto.

Elas só vêm impregnadas dos limites impostos pela natureza da entidade, e do líder que vocaliza a sua mensagem.

A Igreja Católica há séculos, talvez logo depois de Constantino, abandonou seu papel revolucionário e assumiu sua face pró-estamento.

Prova disto que há nos ordenamentos jurídicos mundiais  uma boa dose de conservação ministrada pelas orientações dogmáticas do catolicismo, como nenhuma outra religião, onde podemos destacar a permanente polêmica sobre aborto, relações homoafetivas, dentre outras.

E tal condição conservadora não á acidental ou escolha. Religião é expressão da fé, e fé é busca pela verdade que não pode ser contestada, daí que os dogmas que levam a verdade têm que ser conservados, SEMPRE, ou no máximo atualizados para dar contornos mais ágeis a defesa daquela verdade já fixada pela tradição!

Logo, não há de se esperar ou comemorar as falas do atual Papa. Nem quando se insurgem contra o flagelo da fome.

A Igreja, ideologicamente, é sócia do sistema produtivo global que gera fome, porque gera antes desigualdade. Foi com o advento do capitalismo que a Igreja "encaixou" seus negócios e expansão!

As receitas e diagnósticos da Igreja e de seu chefe para combate a fome, portanto, são todas pueris e inócuas, sentimentais apenas.

Servem para acalentar crenças, mas não encherá barrigas, não estruturalmente falando.

Até a própria parábola da multiplicação dos peixes já nos revela o pensamento "liberal" da Igreja, ou seja, crescer a riqueza para distribuir depois.

Enfim, um chefe de Estado, do Vaticano, reclamar de investimentos em armas, sendo ele mesmo (o Vaticano) fruto de um acordo com um líder que se impôs pelas armas e pelo terror (Mussolini) é algo que soa ironicamente trágico.

Ou, se lembrarmos que o domínio católico pelo mundo se fez de espada na mão.

Mas estas contradições nos alegram, pois acabam por aproximar a Igreja dos homens, e quem sabe, estes homens possam, entendo-a como mais terrena, enfim, mudá-la para melhor?

Um bom palpite para o Papa Francisco e seus auxiliares e subordinados é que se mantivessem afetos aos temas da fé. Já seria um bom começo, pois muito ajuda quem não atrapalha.

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imagem de jofra
jofra

Chama o LULA que ele conhece do problema

O Santo Padre, na linha de conduta espiritual / administrativa que está a empregar, não causará surpresa ao mundo, excetuados os COXINÍSTICOS, NEOLIBERAIS e da BIG HOUSE BRASILEIRA, se consultar as pessoas que têm experiências em tirar pessoas da pobreza; entre elas: Lula e Dilma!!! Viva o Brasil, o Lula e a Dilma!!!!! 

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Pois é, nenhum comentário.

É que as pessoas torcem o o nariz para o portador da mensagem...

E não prestam atenção na mensagem...

Hiprocria, pura hipocrisia, que os igualam aqueles que pormovem as desigualdades.

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