
Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo
Seguir no Google
Jornal GGN – As alterações do programa de governo de Marina Silva repercutiram entre artistas e intelectuais. O escritor Milton Hatoum, que antes compunha seu eleitorado, agora analisa a candidata como alguém “suscetível à influência de pastores fundamentalistas”. Já o diretor Fernando Meirelles, elogiou seu plano de governo e manterá seu voto, entretanto chamou de “tremenda comida de bolas” a publicação da “versão errada”, que teria obrigado o grupo a voltar atrás.
Sugerido por Pedro Penido dos Anjos
Do Blog Cidadania & Cultura
Por Fernando Nogueira da Costa
Luciano Máximo (Valor, 05/09/14) informa que as contradições que envolveram a divulgação do programa de governo da candidata à Presidência da República Marina Silva (PSB) não polemizaram somente no campo eleitoral. Também repercutiram entre artistas e intelectuais com histórico de apoio à política acreana.
Depois que a ex-senadora decidiu mudar propostas sobre casamento gay e aborto por causa da pressão de líderes evangélicos, o escritor Milton Hatoum ficou “muito preocupado”. Eleitor da ex-senadora no primeiro turno de 2010 e propenso a votar nela este ano, ele “desmarinou“. Já o diretor de cinema Fernando Meirelles, entusiasta das ideias de Marina, classificou o episódio de “vacilo”, mas continua firme no apoio à candidata do PSB.
Leia abaixo uma síntese das entrevistas de Milton Hatoum e Fernando Meirelles e, depois, a declaração de voto do cineasta Jorge Furtado.
Considerado um dos mais importantes escritores brasileiros da atualidade, autor de obras como “Dois irmãos” e “Cinzas do Norte“, Hatoum, de 62 anos, não consegue identificar a “nova política” no discurso de Marina. Para ele, a senadora é muito suscetível à influência de pastores fundamentalistas e tem dificuldade para separar religião e política.
“Ela é a mais marcada nessa questão da religião que seus adversários porque tudo tem uma conexão com o plano divino. Deus não sai de seu discurso. Eu acho isso estranho. Que os pastores digam isso, tudo bem, mas para um candidato de um Estado laico eu acho que ela está contaminada demais“, opina Hatoum.
Já para Meirelles, de 58 anos, há hipocrisia por parte de PT e PSDB ao envolver Marina em polêmicas religiosas. “Tanto a Dilma quanto o Aécio, que não creem, usam o nome de Deus em suas falas. Dilma foi falsa como uma nota de dois dólares na Assembleia de Deus. Já a Marina, que crê de fato, paradoxalmente é a única que não usa Deus em seu discurso, mas é a única criticada por isso”, argumenta o diretor de “Cidade de Deus“.
Sobre as mudanças no programa de governo de Marina, Meirelles reconhece o erro. “Foi uma tremenda comida de bolas eles terem publicado a versão errada e depois voltado atrás, um vacilo. Mas o programa toca em tantos pontos importantes que é uma pena que essa questão, também importante, se torne o fiel da balança”, avalia Meirelles. Em 2010 ele ajudou a formar a equipe de TV de Marina e foi “palpiteiro” na campanha.
Com participação menos intensa ao lado da ex-senadora neste ano, ele acredita que sua candidata está melhor preparada que há quatro anos e com “grandes chances” de vitória. “É tão difícil pegar a Marina no pulo que quando aparece a troca de ‘casamento’ por ‘união estável’ num documento, a turma aproveita e sai gritando.”
Confira a seguir a conversa com o escritor Milton Hatoum:
Valor: Você iria votar em Marina e desistiu. O que houve?
Milton Hatoum: Votei nela no primeiro turno em 2010. Este ano estava propenso a votar no candidato Eduardo Campos, isso sim. Acho que ele era um político de centro-esquerda com ideias para o Brasil, com liderança, não estava contaminado nem um pouco por um discurso messiânico, religioso.
Valor: A questão religiosa gerou seu desencanto com Marina?
Hatoum: Achei até consistente o programa de governo da Marina, embora muito vago em alguns aspectos, mas quando eu li as alterações todas, feitas às pressas, vi que ela tinha se tornado refém dos partidos religiosos fundamentalistas.
Valor: Foi aí que “desmarinou”?
Hatoum: Em três dias vimos que a política pode mudar como as nuvens. A mudança do texto original por pressão de líderes religiosos foi lamentável. Mas também teve a adesão de velhas raposas da política brasileira à onda Marina nos últimos dias: José Agripino Maia, fisiológicos do PMDB. Quando ela diz que vai governar com os melhores isso não significa nada.
Valor: Você fala das possíveis alianças de Marina, mas era Eduardo Campos o responsável por elas.
Hatoum: Marina deu espaço demais [a esses líderes evangélicos]. Ela se inspira em versículos bíblicos aleatórios para tomar decisões. Isso é assustador, um retrocesso geral. Ele [Campos] fazia costuras, mas não aceitava o PMDB, que já está se aproximando da Marina, assim como outros políticos de caráter mais duvidoso. Acho que ele teria mais força de fazer um filtro.
Valor: O PSDB se enfraqueceu.
Hatoum: Perdeu toda a força que tinha no começo, o candidato Aécio Neves está perplexo, abatido com essa virada. Me parece que a disputa está definida [Dilma e Marina], não as eleições.
Valor: O PSDB fala que até 15 de setembro retomará o segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto.
Hatoum: Acho difícil. O PT tem um eleitorado muito cativo, quem vota no PT não vota em mais ninguém. Muita gente que vai votar na Marina não quer mais polarização [PT-PSDB] e tem muita gente que não pensa a política de forma reflexiva. Depois do acidente surgiu um elemento de quase devoção pela Marina. O PSDB não vira.
Valor: Essa devoção combina com a ideia de nova política?
Hatoum: Isso é chocante. Corremos o risco de essa devoção, esse personalismo ser substituído por um espécie de messianismo. Política não pode ser um ato consumado do plano divino, não pode ser inspirada pela Bíblia ou qualquer outro texto sagrado, porque o Estado laico se atrofia.
Valor: De novo a religião…
Hatoum: Repare na linguagem desse pastor [Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo]: disse que Aécio e Dilma não são malucos de defender temas como o casamento gay, se eles fizerem isso o sarrafo vai comer. É a linguagem do preconceito, da violência. É como chutar a imagem de uma santa católica, incendiar um templo de candomblé no Rio de Janeiro. Ele falou que o governo representará a maioria cristã da sociedade brasileira. Um absurdo! E os judeus, budistas, católicos, os mais de 20 milhões de agnósticos e ateus não estarão representados?
Valor: Não votar em Marina por ela ser evangélica é preconceito?
Hatoum: A questão é que a política não pode ser um ato consumado pelo poder divino.
Valor: Mas Marina é mais marcada pela religião do que seus adversários, não acha?
Hatoum: Ela é a mais marcada porque tudo tem uma conexão com o plano divino. Deus não sai de seu discurso. Eu acho isso estranho. Que os pastores digam isso, tudo bem, mas para um candidato de um Estado laico eu acho que ela está contaminada demais. Mais um dado importante: alguns membros da cúpula da direção do PSB já saíram, o secretário-geral, gente da executiva, o coordenador da área LGBT. Se ele se surpreendeu com a correção do programa de governo, o que dizer de um eleitor que acreditou por 24 horas naquilo. Não fiquei nem com o pé atrás. Pra mim foi a gota d’água.
Valor: Já considera o Aécio fora da disputa, e a presidente Dilma?
Hatoum: Ela está tentando reagir, o que atrapalha é o discurso pronto, ensaiado. Ela tinha que ser mais ela. Quando o mesmo José Agripino a interpelou sobre a ditadura há alguns anos, ela foi contundente e ele virou um boneco, porque não se brinca com a tortura. Se ela recuperar aquilo que ela é profundamente, e não aquilo que o marqueteiro quer que ela seja, pode ser positivo. Ela já reagiu com a criminalização da homofobia.
Valor: Mas as pesquisas agora apontam vitória da Marina.
Hatoum: O PT errou muito, não fez autocrítica, por isso é difícil votar hoje no PT e muita gente corre para uma nova opção, como se fosse algo diferente. Mas não é e não será: Marina será chantageada pelo PMDB, pelos religiosos, pelo PR, assim como foi com Dilma, FHC. Mas vai ter muita disputa ainda. Não podemos esquecer que o único partido com militância real ainda é o PT, isso pode fazer diferença. Nenhum partido brasileiro tem a militância do PT. Não é o Rede que é sustentável, é a militância.
Valor: Se não vai votar em Marina, qual será sua opção?
Hatoum: Estou sem candidato. Tem o Eduardo Jorge [PV], o PSOL, não me importo em votar em partidos pequenos [no primeiro turno]. Vários amigos estavam com Marina e muitos desistiram depois do episódio do plano de governo.
Trecho da conversa com Fernando Meirelles:
Valor: Gostou do programa de governo de Marina?
Meirelles: Gostei. Pena que ninguém leia o programa. Ele propõe uma grande mudança para o país.
São três eixos principais: o primeiro será manter as conquistas dos outros governos, tentando aprimorá-las, sem se importar se quem as inventou pode estar na oposição. Não se desperdiça boas ideias só por não serem de autoria do partido.
O segundo é democratizar a democracia, que significa criar instrumentos, incluindo redes sociais, para que as decisões do governo reflitam de fato a vontade dos brasileiros.
O terceiro é criar as bases para um desenvolvimento ambientalmente sustentável para podermos ter um país justo, com cidadãos livre e criativos.
Diria que o capítulo sobre educação é o que mais me animou. A Marina quer recuperar a qualidade do ensino das escolas públicas, com ciência e cultura como pilares.
[FNC: se o Meirelles buscasse informações reais, verificaria:
primeiro, o Governo Social-Desenvolvimentista (2003-2014) não desperdiçou bons projetos que tinham sido implantados, anteriormente, mas que eram incipientes, pelo contrário, deu maior escala a, p.ex., Programa Bolsa Família que era dividido em diversos pequenos subprogramas, Correspondentes Bancários, que era reduzido à rede lotérica, Universalização do Ensino Básico, levando-o ao topo, Política de Recuperação do Poder Aquisitivo do Salário Mínimo, elevando o ritmo, etc.
segundo, uma proposta de democracia participativa foi enviada pelo Poder Executivo (Governo Federal), mas foi descartada pelo Poder Legislativo (Congresso Nacional), sendo que a base governista atual é muito superior à que teria Marina Silva, sob alegação que o decreto implicava no risco do surgimento de “um poder paralelo”, o que era um falso argumento, pois a democracia participativa convoca as organizações da sociedade civil e os cidadãos para participarem da definição das políticas públicas, mas de forma consultiva.
terceiro, bastava o Fernando Meirelles buscar conhecer o PRONATEC, o novo ENEM, as novas Universidades Federais, o PROUNI, o FIES, o Ciência Sem Fronteiras, etc., para verificar que também o terceiro ponto do programa da Marina está já em andamento no Governo Dilma.]
Valor: O que achou das mudanças anunciadas momentos depois?
Meirelles: Foi uma tremenda comida de bolas eles terem publicado a versão errada e depois voltado atrás. O fato de ter recuado foi um vacilo. Mas o programa toca em tantos pontos importantes que é uma pena que essa questão, também importante, esteja se tornando o fiel da balança. É tão difícil pegar a Marina no pulo que quando aparece um aluguel de avião ou a troca de “casamento” por “união estável” num documento, a turma aproveita e sai gritando. Faz parte, eles erraram e vão ter que absorver o tranco. Engolir o choro e seguir.
Valor: Como interpreta essa “nova política” que Marina tanto fala?
Meirelles: Parece ser o seu tema central, mas no programa a reforma política que ela propõe é só um instrumento para chegar a o que realmente interessa, que é a construção de um país afinado com os valores e a cultura do milênio em que estamos e não mais com a visão desenvolvimentista do século XX. Ela sabe que governar não é mais abrir estradas nem construir ferrovias. Claro que ferrovias precisam ser construídas e serão, mas um presidente precisa ter visão de país e de futuro, e é isso que ela tem de sobra e é isso que encanta quem a escuta com atenção.
FNC: aí que o Fernando Meirelles e todos os “radicais-chic” se enganam, redondamente, pois imaginam-se ser cosmopolitas, i.é, oriundos dos grandes centros urbanos, quando são apenas colonizados culturalmente, recebendo influência cultural direta de grandes centros urbanos de outros países!
Só que no Brasil ainda não reina a abundância de lá, acessível para todos os seus cidadãos, há muita desigualdade e miséria social, falta infraestrutura e logística básica, enfim, tem muitas necessidades básicas para serem atendidas. Antes de ficarem restritos à militância ecológica pelo Planeta Terra devem observar se a qualidade de vida dos outros seres humanos no País é semelhante à sua, ou seja, da elite socioeconômica e cultural. Senão, não seja contra a visão desenvolvimentista.
Não se pode ser vanguarda sem ver a retaguarda evangélica! Sendo descolada, será apenas vã-guarda…
Entre as posições dos dois produtores culturais entrevistados, prefiro a do Jorge Furtado, diretor entre outros do excelente documentário que assisti no Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro: “O Mercado de Notícias“.
autonomo
7 de setembro de 2014 2:26 pmNa semana o blog do Nassif
Na semana o blog do Nassif publicou um post anunciando o Juca (não sei de que) como o mentor dos planos de Dilma para a cultura.
O texto expunha suas ideias mediocres para algo tão vital: modificação da lei de direito autoral, vale cultura e pontos de cultura.
Voto e brigo pela reeleiçao da Presidente, mas a esolha de seus auxiliares é lastimavel.
O Brasil precisaria de alguem do naipe do falecido Suassuna para recolocar o pais no eixo em relação a sua cultura.
O Gilberto Gil é bom de samba, mas um ministerio da cultura exige muito mais do que isso.
Depois de anos de politicas mediocres a vida cultural ficou tão pobre que roqueiros de ultima categoria,como Lobão e Roger passaram a ser os porta vozes dos “artistas”, no pais do Tom Jobim, do Nelson Pereia dos Santos,do Pixinguinha.
Houve um apagão cultural entre nos.
E apagão cultural não é como o da luz eletrica que desliga a televisão.
O apagão cultural tira luz das mentes e empobrece a discussão.
Passa ser normal se achar que oferecer 50 reais para o trabalhador comprar uma revistinha de sacanagem “vai leva-lo a ter gosto pela leitura”.
Passa ser normal achar que não pagar mais direitos autorais aos artistas vai “oferecer acesso pleno a cultura”.
Passa ser normal os universitarios, no pais do Tom, do Baden, do Cartola, escutarem “sertanejo universitario”.
Passa ser normal o tal Juca afirmar que os pontos de cultura asseguram “acesso pleno a cultura”.
Passa ser normal escutar um ministo da cultura afirmar que o fora do eixo “é uma das manifestações culturais mais importantes do pais”
Depois de tudo isso sobra o que?
Um “debate de intelectuais” com cineastas como esse Meirelles, achando que as ideias de Marina Silva vão salvar a humanidade.
Eu queria ver um Glauber Rocha num “debate” assim.
Luiz Gonzaga da Silva
7 de setembro de 2014 3:20 pmMeirelles…São três eixos
Meirelles…São três eixos principais: o primeiro será… O segundo é… O terceiro é…
…O quarto é terceirizar a política econômica entregando-a aos banqueiros e quetais, esse é o eixo principal do programa de Marina. A isto , soma-se seu desdem pelo pré-sal. A política é arrasa quarteirão, o quarto eixo vai quebrar todos os outros.
O cineasta de “Ensaio Sobre a Cegueira” parece estar, tal qual sua candidata, no mundo da lua. Dizer que Marina não cita Deus em seu discurso mostra que Meireles foi acometido pela doença dos personagens do romance de Saramago.Não está enxergando um palmo a frente do nariz.
C. Acácio
7 de setembro de 2014 4:58 pmFernando Meirelles foi
Fernando Meirelles foi contaminado pelo “ebola econômico” … o neo liberalismo. O vírus , aloja-se nas mentes contaminadas por teorias imperialistas e por discursos prontos , confeccionados e vendidos nas esquinas de Wall Street …
Alvaro Braz Maciel
7 de setembro de 2014 10:54 pmEbola economico
Voce colocou o dedo na ferida ! Parabens! Faço minha as tuas palavras.
Roberto Luiz
12 de setembro de 2014 4:27 pmProgama de Governo!
Porque Dilma não faz um programa de governo de verdade ao invez de fazer birrinha chamando todo mundo de neoliberal, não que o programa de marina seja bom, mas Dilma não entregou metade do que prometeu!